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Na massa do sangue e no olho da rua?

Na massa do sangue e no olho da rua?

04/12/2021
Na massa do sangue e no olho da rua?

O samba e sua (sub)presença nos palcos de Porto Alegre

Anaadi, cantora,  compositora e mestranda da Universidade La Salle. 

Zilá Bernd - Professora da Universidade La Salle e pesquisadora do CNPq. 

 

Eu digo e sempre hei de dizer: o samba não é uma onda, não é um movimento. O samba é uma instituição. O samba não passa. O samba tá na massa do sangue. Por isso eu digo: o samba agoniza, mas não morre.

Assim, Nelson Sargento vislumbrou, do alto do seu posto de ícone do samba, um presente e um futuro de resistência para a cultura e estética musical da qual foi um dos pioneiros. Hoje, é com suas palavras que lembramos, neste 02 de dezembro, o Dia Nacional do Samba.  Propomos um lembrar reflexivo, um convite a pensarmos sobre sua insistente agonia frente ao risco de um fim, também mencionado por Benito Di Paula em Não Deixe o Samba Morrer. Se não é na batida dos tambores, nem no choro da cuíca, onde é que o samba agoniza?

Surgido no início do século XX em territórios negros do Rio de Janeiro, o samba era a expressão e memória de um povo sem voz ou vez na sociedade. Contudo, a partir de mediações transculturais feitas pelos esforços de artistas como Donga e Pixinguinha para conectar seus companheiros sambistas às elites cariocas da época, o samba ascendeu ao lugar de símbolo máximo de brasilidade, embora às custas de estratégias de desafricanização. No decorrer das décadas, percorreu territórios de norte a sul, incorporando-se à massa do sangue dos brasileiros, e a capital gaúcha, ainda que distante dos modos de vida cariocas, não escapou desta forte influência.

A relação de Porto Alegre com o samba parece refletir sua conexão com o próprio país que lhe é soberano: feita de complexidades que ora os aproximam, ora os distanciam de um senso de identidade e pertencimento. Celeiro de grandes talentos, a cidade já revelou artistas de atuação nacional no universo do samba. Lupicínio Rodrigues, gênio do samba canção, foi interpretado por imortais como Paulinho da Viola, Elis Regina, Ney Matogrosso e Elza Soares. O sambalanço de Bedeu e Luis Vagner influenciou gerações para além das fronteiras do estado. Adriana Calcanhotto afirmou sua admiração com o disco Micróbio do Samba e Zilá Machado, destaque na TV Globo nos anos 1970, mantém o título de nossa grande dama do samba. Neste cenário, seria lógico pensar que os porto-alegrenses têm, com o samba, memórias afetivas que lhes são motivos de orgulho e de ligação da cidade com o samba. Ao buscarmos pesquisas sobre tal relação, nos dias atuais, encontramos dados interessantes. Segundo um estudo da Crowley (UBC, 2008), o pagode, variação do samba, foi o quarto estilo mais ouvido em rádios no Rio Grande do Sul em 2008, suscitando o interesse de 23% dos ouvintes. Já o samba foi o estilo mais buscado no Google, cativando 32% dos internautas gaúchos. Um estudo mais recente (LEIVA; MEIRELLES, 2018) sobre o consumo de produtos culturais nas capitais do Brasil indicou que o samba e o pagode atraem, nessa ordem, 19% e 23% das preferências de consumo musical dos porto-alegrenses. Entre os estratos sociais, produtos de samba despertam a intenção de compra de 17% da classe A e de 20% da classe B. São 37% dos consumidores culturais, entre os quais 61% de etnia branca e 39%, afrodescendentes. Dados como esses apontam para um significativo interesse por samba na região. Sua presença, porém, nos eventos promovidos no mercado local, não parece corresponder a essa demanda. Em nosso recente estudo, realizado em junho de 2021, sobre a oferta de samba e de rock nos shows apresentados em Porto Alegre, em 2019, o samba mostrou-se pouco frequente em concertos comercialmente rentáveis, aparecendo mais em eventos de entrada franca produzidos com verba pública, em espaços pequenos e sem grande divulgação. Há que se perguntar por quê.

Começamos por fazer um importante alerta: é preciso dizer que há falta de dados memoriais acerca dos espaços musicais de Porto Alegre. A escassez de informações como estas é um dos principais impedimentos para a formulação de estratégias de crescimento do setor cultural em países em desenvolvimento como o Brasil, sendo que a capital gaúcha não foge a esta regra. Dos 30 equipamentos culturais por nós analisados, apenas 8 possuíam websites com registros de programação, sinopses e preços de ingressos de eventos anteriores: os teatros São Pedro, Bourbon Country, Amrigs, Unisinos e Sinduscon, o Solar dos Câmara, o Salão de Atos da UFRGS e o Pepsi On Stage. Dos locais voltados ao samba, nenhum tinha página eletrônica. Esse fato impõe obstáculos concretos ao mapeamento de informações sobre a economia da cultura local, sem o qual torna-se difícil a conquista de patrocínios para qualquer dos segmentos da música. Logo, é importante um maior engajamento dos espaços culturais de Porto Alegre quanto à publicação dos registros memoriais de suas atividades.

Em nosso estudo, dos 215 eventos apurados, 39 (18%) continham ao menos uma canção de samba, enquanto 69 (32%) possuíam ao menos uma e, amiúde, muitas canções de rock. Entre aqueles com ingressos acima de R$100, o rock ocorreu em 20,5%. Já o samba fez parte do repertório em apenas 3,7% dos casos. Dos shows com samba, 54% tiveram entrada franca e 7,6% cobraram 1kg de alimento, sendo a maioria realizada em espaços de pequeno porte. De outro lado, apenas 16% dos concertos com rock tiveram entrada franca, enquanto 63,6% cobraram ingressos entre R$100 e R$600 sobre a entrada de centenas ou milhares de pessoas. Ademais, enquanto 80% dos eventos com rock foram patrocinados com verba privada, os com samba realizaram-se, em sua maioria, através de investimentos públicos.

Diante desses resultados, surgiram inúmeras perguntas: se existe um interesse significativo por samba pelo público consumidor de cultura em Porto Alegre, por que há uma oferta tão baixa de espetáculos voltados a este estilo musical nos espaços culturais locais, sobretudo naqueles financiados pela iniciativa privada? Por que o samba é hoje relegado a pequenos ambientes? Por que ao longo do ano de 2019 houve dezenas de espetáculos cover em tributo a ícones estadunidenses e europeus do pop e do rock como The Beatles, Bon Jovi, ABBA, Elvis e Adele e, ao menos em nossa amostra, nenhum em tributo a um grande ícone do samba? Será que as curadorias locais têm acesso a pesquisas recentes sobre as intenções de consumo cultural na cidade? Existem pesquisas suficientes para este fim? Será que o público de Porto Alegre encontra ofertas adequadas às suas demandas por espetáculos de samba?

A melhor descrição para este contexto inquietante se revela nos ditos do mestre Sargento: o samba agoniza. Agoniza nas ruas, nas margens, nos espaços cada vez mais excluídos do centro da cena musical.   E assim vai sobrevivendo pelos cantos e batucadas, pelas mãos e vozes que lhe são fiéis. Talvez porque a base de sua cultura seja subterrânea, para evocarmos o pensamento de Michael Pollak. A cultura associada ao samba é composta por memórias da diáspora, da escravidão e de experiências do indizível vividas pelo povo que lhe deu vida. Assim como não raro expulsamos o negro dos espaços oficiais do social, ainda que seu sangue integre cada construção emergida neste país, quem sabe estejamos, sem notar, expulsando também o samba de nossos teatros e centros culturais mais expressivos, ainda que seu ritmo pulse em nossas veias e corações. Pensamos que não seria exagerado afirmar que, enquanto não houver equidade racial e social, a memória do samba estará ? para muitos ? atrelada à subalternidade e ao passado escravista que lhe deu origem.   

Nelson Sargento parece estar certo. O samba surge, vive e sobrevive na resistência e, se apesar de desenhar sua marca no DNA dos brasileiros, com a beleza de suas melodias e o batucar de seus ritmos, sua (sub)presença parece refletir as complexidades de uma suposta democracia racial que de democrática ainda nada tem. Sobretudo num país como o Brasil ou numa cidade como Porto Alegre, a herança de séculos de escravidão ainda nos distancia de uma conduta de amor às africanidades e de respeito às alteridades.  

 Não só por haver pesquisas, mas por haver olhos e ouvidos, é possível notar que, das festas das elites às celebrações mais populares da cidade, aprecia-se o samba, os ?sambinhas?, as bossas, enfim, muitos dos produtos culturais de parte expressiva da população brasileira, até hoje relegada às margens. Toca-se o samba para o divertimento e para o cartaz internacional, mas há que se questionar em que medida lhe concedemos um lugar digno no sistema econômico da cultura. Neste Dia Nacional do Samba, fazemos um apelo aos curadores, patrocinadores, pesquisadores e administradores do mercado de espetáculos de Porto Alegre para refletirem conosco sobre estas perguntas, a fim de buscarmos juntos alternativas para as necessárias respostas e consequentes mudanças de atitude. Quem sabe assim poderemos devolver  o samba ao lugar que ele merece: no centro dos palcos e não no olho da rua. 

 

Referências

LEIVA, J.; MEIRELLES, R. (Org.). Cultura nas capitais: como 33 milhões de brasileiros consomem diversão e arte. Rio de Janeiro: 17 Street Produção Editorial, 2018.

POLLAK, M. Memória, esquecimento, silêncio. Tradução: Dora Rocha Flaksman. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, p. 3-15, 1989. 

UBC. Brasis musicais. Revista da UBC, n° 38, p. 24-31. Rio de Janeiro: Vizoo, 2018.

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